quinta-feira

A morfina nossa que nos daí nesse natal


Minha irmã chegou em casa esses dias me perguntando se eu queria adotar uma criança nesse natal. Funcionava mais ou menos assim: eu pegava um cartão de uma ONG com o nome e os dados de uma criança e comprava um tênis para ela.

Após toda essa explicação, eu disse para a minha irmã que não iria ajudar, pois investia dinheiro em outros projetos. Ela ficou maluca, e disse que eu não tinha coração. Eu ri comigo mesmo, e vim escrever esse texto.

É impressionante como muitas pessoas vivem o ano inteiro olhando para o seu próprio umbigo, se endividando com objetos supérfluos, gastando o que não tem sem se preocupar com nada e no final do ano, para redimirem suas almas, compram alguns presentes e oferecem para os pobres. Ainda fazem isso dizendo: “É, estou fazendo a minha parte para um futuro melhor”. Eu não acredito nesse tipo de boa ação, que na verdade é uma má ação, pois é viciosa, não traz emancipação e nem autonomia para o individuo.

Sei que muitas pessoas na época natalina têm o costume de dar muitos presentes e ajudar muitas ONGs e outras instituições de caridade, mas não é assim que vamos resolver o problema caótico do nosso país. Esse tipo de solidariedade é alienadora, pois não importa se o indivíduo vive o ano inteiro esbanjando um luxo desnecessário, o importante é se no final do ano ele aliviará sua alma comprando uma cesta básica, um tênis ou qualquer outro tipo de morfina que o faz sentir um cidadão que colabora com o futuro da nação.

Sinto-me indignado quando vejo algumas pessoas esbanjando caridade no natal, e sempre me pergunto o por que não pensamos nessa solidariedade quando vamos comprar nossos tênis de quinhentos reais, ou nossas bolsas e calças de trezentos reais, ou quando ajudamos a construir nossas igrejas de mais de meio milhão reais?

Acredito que não valha a pena investir recursos em instituições ou projetos que tapam o sol com a peneira, os quais apenas massageiam nosso ego tentando nos iludir que estamos colaborando com um país melhor. É muito melhor financiar projetos concretos que levam as pessoas a alcançarem a emancipação e autonomia social. A grande preocupação que devemos ter não é simplesmente se o indivíduo vai ter o que calçar no natal, mas sim se ele terá condições de andar pela sua cidade com a dignidade que realmente deveria ter, com a educação que deveria receber e com o mínimo de segurança para se viver em paz.

Quero que meus gestos tragam liberdade e não dependência. Quero que meus atos sejam constantes e não esporádicos. Quero que meu próximo viva bem como eu e, por isso, nesse natal minha súplica não é para que eles ganhem bons tênis, mas para que ganhem a possibilidade de viver dignamente e com esperança. Pois o que nos move na vida não é o que trazemos nos pés, mas sim o que acalentamos no nosso coração.

10 comentários:

  1. curti dmais *-* a pura realidade q estamos vivendo hj em dia

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Destruiu Calebe!! Massa o texto. muito bom...

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  4. Vivemos de palhativos, essa é a nossa realidade. Em linha gerais concordo com você: Gestos para aliviar a consciência e tentar um ponto positivo com Deus.

    Mas dando um pitaco à moda Poliana, existem pessoas que conhecem ótimos trabalhos de ongs nessa época do ano, e continuam sendo agentes de transformação na vidas de alguma pessoas durante todo o ano. Claro que esse número é ínfimo, mas para aquela pessoa faz toda a diferença.

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  5. Parabéns pelo texto Calebe. é a mais pura realidade!

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  6. Não acredito que todas as ONG's do mundo sejam a 'morfina' contudo, concordo plenamente com esta frase:

    "...Quero que meus gestos tragam liberdade e não dependência..."

    É como a minha profª de geografia do segundo grau já dizia:

    "Devemos atacar a causa e não a consequência "

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  7. Não tenho nem o que comentar... falou e disse! ;D

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  8. Tbm acho q fazer alguma coisa para apagar o que foi feito durante o ano ou até mesmo pra ganhar ponto com Deus, não é legal.
    Mas não adianta tbm não fazer nada, ajudar a uma ong ou algum projeto social pode ser o inicio de uma longa caminhada para mudar e ajudar vidas e com certeza para a pessoa que está recebendo faz toda a diferença.

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  9. Parabéns, Calebe! Crítica social recheada de missão integral!

    Ajudar não é missão de final de ano, mas missão de todos os dias!

    Deus te abençoe sempre!

    Abraços

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