quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Status de Pobre

Passo a escrever algumas das coisas que somente nós pobres temos o privilégio de fazer durante a nossa humilde e feliz estadia na terra.

É status de pobre subir no telhado e ficar girando a antena pra direita e pra esquerda gritando: Tá bom? Tá ruim? Mexe mais?

Pobre que é pobre já usou uma havainas com a sola branca e alça azul, ou sola branca e alça verde. E tem mais, quando arrebenta a cabeça da alça, pobre que é pobre não compra outra não, vai, passa um grampo e usa por mais uns dois meses. Quem é pobre sabe do que estou falando.

Ser pobre é ter síndrome de museu, é sempre guardar roupas velhas, objetos antigos, que foram de nosso filhos, pais, avós. Nunca mais vamos usar aquilo, mas fazemos questão de guardar. Mesmo que não tenha espaço na casa, agente da um jeito. E não tem jeito, se você fizer uma faxina e tirar todos os entulhos, em três horas já aparecem novos entulhos, pois isso é status meu amigo.

Não basta apenas ser pobre, é preciso ter status, por isso não importa a situação que passamos, ou onde moramos, um pobre sempre tem um cachorro mesmo não tendo condições de sustentá-lo. É incrível, o filho passa fome, a casa fede, mas o cachorro permanece, pois isso dá status.

Ser pobre é comprar fiado, é tomar tubaina no almoço, é levar coxinha em tupperware na festa da escola, é tomar citra ceracer no ano novo, é ter uma gaveta que não abre, uma gaveta sem maçaneta e uma gaveta sem fundo. Ser pobre é usar camiseta de vereador, é guardar em casa jornal de supermercado, é reutilizar pote de sorvete, margarina e fazer do pote de geléia um belo copo para tomar café.

Para um pobre de status necessário é ter crediário, financiar R$ 10,00 em 12 vezes. Ter convênio, mas na hora “h” ir no hospital público. Pra ser pobre tem que ter coisa em cima do armário, embaixo da cama e dentro do sofá. Tem que ter um banheiro que não funcione direito, sem chuveiro ou sem descarga. Tem que ter uma torneira pingando a mais de três anos, e uma prateleira sustentada por um banco velho.

Mas de todos, o principal, aquilo que difere os pobres de status e os pobres sem status é o fato de ter uma roupa atrás da geladeira. Pobre que é pobre, não importa onde more, tem roupa atrás da geladeira. Pode ser camisa, calcinha, cueca, meia, tênis. Quer ver se o cara é pobre é só olhar atrás da geladeira, se tiver roupa é pobre.

Pois ser pobre não é condição geográfica e sim vivencial, e o mais legal de tudo é que isso não é bom e nem é ruim, é apenas status de pobre.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O homem da escrivaninha

A casa está silenciosa esses últimos dias, acho que todos saíram, ou será que todos se foram? Não sei!

O velho senhor continua sentado e só. Engano meu, acho que é o jovem, que se tornou velho cedo demais. Ele está a espera de alguém.

Viver esperando alguém é entediante, ainda mais quando esse alguém não chega. No entanto eles esperam juntos, a essa altura, já não se pode discernir o jovem do velho e velho do jovem. Não que eles sejam os mesmos, mas acho que se complementam. Na dor dois se tornam um e na alegria cada um segue seu caminho.

Todos estão silenciosos esses últimos dias, acho que a casa se foi, ou será que saiu? Não sei!

Só sei que há um moço sentado a escrivaninha, debruçado sobre seus papeis, escrevendo com afinco, fazendo a caneta flutuar em suas mãos. Acho que me enganei, ele não tem papel à mesa, ele escreve em seu computador, mas está debruçado e com caneta na mão.

Ele se levanta silenciosamente, alguém bate no portão, ou seria um portal?

O desejo do jovem é falar.

O desejo do velho senhor é de ser ouvido.

Há um elo entre os abismos.

Em uma casa silenciosa.

[Este texto faz parte da série "O senhor e os pombos" para compreendê-lo melhor entre lá e leia os textos anteriores.]

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Só as crianças ouvem!

Começam as festas e as danças, as músicas e os fogos, porém só as crianças ouvem.

A mesa esta farta, bonita e robusta, senti-se o cheiro suave do peru de natal tão esperado, dá até para ouvir o som de satisfação pelo alimento, porém só as crianças ouvem os suspiros.

Vê-se o papai noel sobre as casas distribuindo alegrias e presentes, ele deixa seu guizo soar, porém só as crianças ouvem o guizo.

Deitado na cama é possível ouvir o bom velhinho entrando pela chaminé, ou pela porta dos fundos, não importa por onde entre o importante é que ele entre. Dá pra imaginar ele colocando presentes embaixo da árvore de natal ou até mesmo da cama, porém só as crianças ouvem os passos.

É possível desfrutar o lindo som dos corais entoando cânticos que contam a história real sobre o natal, é possível ouvir as vozes rompendo o silêncio frio da noite, porém só as crianças ouvem as vozes.

É o momento de histórias e risadas, de encontros e abraços, de ver e matar a saudade, de viajar e hospedar, é tempo de relembrar os momentos e reencontrar os parentes, é tempo de brindar a família, porém só as crianças ouvem o soar das taças.

É o momento ideal para refazer as amizades e fazer as amizades, é o momento de celebrar mais um ano vivido. É momento de repensar na vida, nos planos e nos projetos, é momento de falar sozinho e questionar o sentido da vida, porém só as crianças ouvem o sussurro.

É possível perceber as lagrimas de muitos por causa do luto, do frio e da tristeza. As vezes se festeja sem as pessoas queridas que já partiram, as vezes se festeja sozinho, ou sem recursos ou até mesmo sem razões para se festejar, porém só as crianças ouvem o choro.

Ouvem-se os anjos rompendo a aurora, entoando louvores, anunciando a chegada do verbo, mostrando a todos a possibilidade de uma nova vida. Ouve-se o forte som das trombetas na estalagem simples, entres pastores humildes que pulam de felicidade. Ouve-se em uníssono as vozes cantando: “Nasceu o menino, o Emanuel”. Entretanto todos os adultos ouvem, porém só as crianças crêem.

“Aquele que tem ouvidos para ouvir ouça.”

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A morfina nossa que nos daí nesse natal


Minha irmã chegou em casa esses dias me perguntando se eu queria adotar uma criança nesse natal. Funcionava mais ou menos assim: eu pegava um cartão de uma ONG com o nome e os dados de uma criança e comprava um tênis para ela.

Após toda essa explicação, eu disse para a minha irmã que não iria ajudar, pois investia dinheiro em outros projetos. Ela ficou maluca, e disse que eu não tinha coração. Eu ri comigo mesmo, e vim escrever esse texto.

É impressionante como muitas pessoas vivem o ano inteiro olhando para o seu próprio umbigo, se endividando com objetos supérfluos, gastando o que não tem sem se preocupar com nada e no final do ano, para redimirem suas almas, compram alguns presentes e oferecem para os pobres. Ainda fazem isso dizendo: “É, estou fazendo a minha parte para um futuro melhor”. Eu não acredito nesse tipo de boa ação, que na verdade é uma má ação, pois é viciosa, não traz emancipação e nem autonomia para o individuo.

Sei que muitas pessoas na época natalina têm o costume de dar muitos presentes e ajudar muitas ONGs e outras instituições de caridade, mas não é assim que vamos resolver o problema caótico do nosso país. Esse tipo de solidariedade é alienadora, pois não importa se o indivíduo vive o ano inteiro esbanjando um luxo desnecessário, o importante é se no final do ano ele aliviará sua alma comprando uma cesta básica, um tênis ou qualquer outro tipo de morfina que o faz sentir um cidadão que colabora com o futuro da nação.

Sinto-me indignado quando vejo algumas pessoas esbanjando caridade no natal, e sempre me pergunto o por que não pensamos nessa solidariedade quando vamos comprar nossos tênis de quinhentos reais, ou nossas bolsas e calças de trezentos reais, ou quando ajudamos a construir nossas igrejas de mais de meio milhão reais?

Acredito que não valha a pena investir recursos em instituições ou projetos que tapam o sol com a peneira, os quais apenas massageiam nosso ego tentando nos iludir que estamos colaborando com um país melhor. É muito melhor financiar projetos concretos que levam as pessoas a alcançarem a emancipação e autonomia social. A grande preocupação que devemos ter não é simplesmente se o indivíduo vai ter o que calçar no natal, mas sim se ele terá condições de andar pela sua cidade com a dignidade que realmente deveria ter, com a educação que deveria receber e com o mínimo de segurança para se viver em paz.

Quero que meus gestos tragam liberdade e não dependência. Quero que meus atos sejam constantes e não esporádicos. Quero que meu próximo viva bem como eu e, por isso, nesse natal minha súplica não é para que eles ganhem bons tênis, mas para que ganhem a possibilidade de viver dignamente e com esperança. Pois o que nos move na vida não é o que trazemos nos pés, mas sim o que acalentamos no nosso coração.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Eu quero viver até os 90 anos!


Eu quero viver até os noventa anos, pois quero ver a história, viver na história e fazer história.

Para isso, vou trocar a carne de boi pelo peixe, a gordura pelos legumes, o guaraná pelo suco.

Eu quero viver até os noventa anos, vou caminhar mais, nadar mais, ir mais vezes ao médico, vou me exercitar mais, brincar mais e dar mais risadas.

Vou trabalhar menos, mesmo que ganhe pouco, mas é preferível ganhar pouco e gastar tudo, do que ganhar muito e não ter tempo para gastar.

Vou trocar o serviço 24hr da cidade grande pelo serviço até as dez da noite de uma cidade pequena, pois a cidade grande me serve 24hrs por dia em compensação me rouba 24 anos de vida.

Eu quero viver até os noventa anos, quero ver meus filhos crescerem, casarem, quero ver os filhos dos meus filhos e por que não ver os filhos dos meus netos.

Quero poder contar a história da minha família para eles, quero poder mostrar as fotos, quero poder contar como era a noventa anos atrás.

Vou me estressar menos, vou mudar minha alimentação, vou beber mais água e passar mais protetor solar, vou evitar o sol, evitar acidentes.

Eu quero viver até os noventa anos e quero chegar aos noventa anos podendo andar tranquilamente, quero ir ao parque caminhar com a minha senhora, quero sentar na beira da praia com um violão e tocar as músicas que fiz aos dezenove anos.

Eu quero ver a história se desenrolar, quero ver o avanço da tecnologia, quero ver o avanço da medicina, e descobrir se daqui a setenta anos eles terão descoberto um novo meio de se fazer exame de próstata.

Eu vou ler mais, exercitar a minha mente, não brigar por coisas pequenas, não abusar do colesterol e nem do açúcar, não vou me acabar no chocolate e nem no sorvete.

Eu quero viver até os noventa anos, quero reunir meus velhos amigos e lembrar das boas viagens que fizemos e das risadas que demos juntos.

Quero conhecer dez países, quero pular de páraquedas, quero ter quinze minutos de fama, quero fazer algo verdadeiramente significativo.

Eu quero ver os frutos que plantei, quero que sintam a minha falta, quero dar mais risadas, quero quebrar mais coisas e construir mais coisas, quero fazer outras faculdades, aprender novas línguas, e amar a mesma mulher por toda a vida.

Eu quero viver até os noventa anos, pois antes achava que se morresse logo desfrutaria da presença de Deus mais rápido, mas hoje descobri que Ele já está comigo, por isso quero desfrutar ao máximo a sua presença até os meus noventa anos.