quinta-feira

O Senhor do Tempo



Uma vez conheci um velho senhor, muito conhecido na região pelo seu ótimo trabalho. Ele era um relojoeiro, fazia diversos relógios, dos mais variados tipos e estilos. Atendia todos os gostos e pessoas. Não era a toa que todos da região vinham a sua relojoaria para encomendar seu pedido ou trazer o seu relógio ou jóia estragados.

Não existia peça ruim que o velho relojoeiro não dava jeito, e também não havia gosto que não fosse atendido por ele. Durante toda a sua infância gostava de montar e desmontar as coisas. Sempre fora repreendido por seu pai ou sua mãe, mas mesmo assim, não deixava de fazer o que gostava. Era uma pessoa alegre e feliz, ativa e contente, nunca desistia frente às dificuldades. Estava sempre correndo atrás do tempo, pois afinal era um relojoeiro. E também era um homem que valorizava muito o tempo, pois tempo pra ele era, literalmente, dinheiro.

Ele se orgulhava por dominar a arte de trabalhar com o tempo,. Ele realmente se sentia muitas vezes como criador do tempo, não tinha medo do passado, futuro, pois para ele o tempo estava em suas mãos, todavia ele não era capaz de evitar o inevitável: Que o tempo avançasse e ele ficasse velho!

Ele sabia que isso ele não mudaria, e a tristeza por não conseguir evitar que toda a sua juventude fosse embora era visível em seus olhos. Ele começava a sentir em seu próprio corpo a falta da jovialidade. Ele percebia em seu próprio dia-a-dia a falta daquele pique que tinha quando era bem mais novo.

Apesar da idade avançada, o velho relojoeiro não parava de trabalhar. E como um desafio final recebeu uma carta com um grande pedido de encomenda. Seu último e grandioso projeto seria construir um magnífico relógio para ficar como monumento central de sua cidade. Sem dúvida era um projeto audacioso e desafiador. E ele sem exitar, aceitou.

Nem bem amanheceu o dia seguinte, e lá estava ele no trabalho. Bate peça aqui, molda ali, coloca, tira, coloca de novo, encaixa, bate novamente. Ele não para nem para lanchar. Está tão empolgado que nem percebe que o dia passa mais rápido que seus ponteiros podem marcar. Após muito esforço, e passados alguns dias, o grande relógio está pronto. Todos estão na praça para a grande inauguração. É um dia muito especial.
Ocupando lugar de destaque no palanque está o relógio coberto por uma cortina vermelha, e ao seu lado o seu brilhante inventor apoiado em sua bengala.

O povo esta alvoroçado, pois a ansiedade em ver essa obra prima é grande. Todos estão com os olhos fixos no relógio esperando o momento das cortinas se abaixarem. E após alguns minutos elas se abaixam.
Pode-se ouvir o suspiro de admiração do público pela beleza do relógio. O velho senhor dá ordem para que seja dada a corda para que o relógio funcione. E quando ele começa a funcionar, todo o salão é tomado por um súbito silêncio. Só se pode ouvir a voz de um jovem dentre a multidão dizendo: “Mas o relógio esta girando ao contrário”.

O velho relojoeiro responde vagarosamente:

_ Eu o fiz assim, pois durante toda a minha vida pensei que fosse capaz de controlar o tempo. Nesse ultimo trabalho descobri que eu não sou o dono do tempo, pois não o tenho em minhas mãos. O meu último desejo é por um instante voltar atrás e perceber aquele que me guiou durante toda a minha vida, durante todos os meus dias, meses e anos. Meu último desejo é ver o meu nome escrito nas santas mãos do Senhor do tempo.

2 comentários:

  1. Texto ótimo... Serve pra nós também, que achamos que somos "nossos senhores", com frases do tipo "a vida é minha, eu faço o que eu quiser"...
    Realmente, a gente faz o que a gente quiser. Ninguém nos obriga a fazer nada, tá aí o famoso livre arbítrio. Mas eu prefiro usar meu livre arbítrio me submetendo a estar abaixo do poder de Deus!

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  2. Não posso nem entender o tempo, quiça, controlar.

    =D

    Abraço Calebee

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